sábado, 19 de abril de 2008

Gata Borralheira - Direito de Resposta

Em nome das muitas imprecisões que rodeiam a minha história, eu, Gata Borralheira, sinto-me na obrigação de contar a verdade nua e crua.

Um direito de resposta nunca silencia as consequências dos boatos. Uma vez lançados os dados é impossível travar a sua dança cruel. Porém farei o que estiver ao meu alcance para recuperar a minha dignidade.

Não vale a pena toldar os olhos das crianças com factos absolutamente idiotas, mais tarde ou mais cedo, tal como o azeite a verdade aparece a boiar, em rodelas coloridas e oleosas no topo da água que alguns julgam cristalina.

Chega de palavras mansas, chega de aturar mentiras sobre mentiras. Já esfreguei muito soalho nesta vida, já passei toneladas de roupa, já separei quilos de lentilha com bicho de lentilha sem bicho. Enfim, sofri tanto que as calúnias que contam sobre mim são insuportáveis para um coração digno como é o meu.

Após este breve esclarecimento, segue toda a VERDADE sobre a minha biografia:

1) O meu nome NÃO é Cinderela!

Esse nome surreal semelhante ao de uma marca de cosméticos é absolutamente falso.

O meu nome verdadeiro é Gata Borralheira. Este nome é a prova das mortificações pelas quais as minhas duas irmãs adoptivas, mais a minha madrasta, sua mãe, me faziam passar.

Elas obrigavam-me a dormir nas cinzas do borralho, quer dizer, da lareira. Daí o Borralheira!

Quanto à Gata, não sei de onde vem, talvez eu dormisse enroscada como os gatos dormem junto ao lume… Depois deste trauma, a minha memória nunca mais foi a mesma. Se calhar foi da alimentação pobre à base de cascas de batata que me faziam comer…

2) Por muito que me custe dizer isto, as duas irmãs que me infernizavam os dias NÃO eram feias!

Como é da verdade que estamos tratar é preciso dizer que ambas eram bonitas.

Dito isto espero nunca mais folhear um livro onde aquelas duas são verdes, gordas, verruguentas, em suma grotescas.

As duas eram lindas, se fosse hoje, podiam ser modelos. Elas só tinham um problema: o tamanho dos pés. Tal como o Aquiles, as minhas irmãs foram derrotas por aquela parte do corpo.

A mais velha, a pedido da inconsciente da madrasta que lhe chegou a faca e tudo, cortou o dedão grande do pé para que ele coubesse dentro do sapato que era meu.

A mais nova, seguindo o mesmo conselho idiota, lascou um pedaço do calcanhar para ver se o sapato lhe cabia. Eu ainda lhe sugeri a pedra-pomes que usava para polir os calos das minhas mãos, mas ela recusou e deu-me um estalo.

3) NUNCA, MAS NUNCA, me apareceu pela frente uma fada de mãos largas!

As fadas são boas para os que comem cogumelos ou para os que fazem filmes capitalistas. Como, mas como, podem enfiar esta peta na minha história?

Quem me deu o vestido, os sapatos e a tiara foi um passarinho que estava empoleirado numa nogueira. Esta nogueira cresceu em cima da campa da minha mãe, no jardim. Os cemitérios são uma coisa recente, como sabem!

Eu falava com essa nogueira para não ficar maluca de tanto trabalhar e quando as minhas irmãs e madrastas me proibiram de ir ao baile do príncipe, eu cantei para a árvore:

Árvorezinha, sacode os teus ramos frondosos e cobre-me de ouro, prata e mais objectos preciosos!

E pássaro lançou-me a toilette! Voilá!

3) Eu NÃO fui de coche para o baile do príncipe!

A coisa da abóbora, dos ratos e ratazanas transformados em cavalos e em cocheiros, rolas em damas de companhia e etc, não passa de uma estupidez para os espíritos mais crédulos.

Mal tive o conjunto para ir ao baile, pus-me na alheta e corri o mais que pude. Hoje em dia, os crédulos que engolem a coisa da abóbora, não imaginam o trabalho que davam os coches! Pensam que era meter a chaves na ignição e estacionar….

4) Os meus sapatos NÃO eram de cristal!

Eu jamais poderia correr com sapatinhos de cristal! Claro que esta fantasia ridícula tem cabimento se se pensar que fui transportada de coche, que na verdade era uma abóbora… Enfim!

Para ser exacta eu calçava na altura, um par de pantufas (leram bem pantufas) parecidas com aquelas que se compram na Serra da Estrela, mas bordadas a prata e ouro.

5) NUNCA se ouviram as doze badaladas!

Este pormenor passou a ser inventado quando as adolescentes começaram a querer sair à noite e os pais não sabiam como marcar-lhes uma hora de regresso. Então, o que fizeram? Toca a contar a história miserável da Cinderela!

Fiquem a saber, pais desnaturados, que eu voltei do baile para casa logo que anoiteceu! Pois é! Não foi à meia-noite! Foi bem mais cedo e para chegar a horas, tive de correr bem!

Para não descobrirem quem eu era, tive que me atirar primeiro para trás de um pombal, depois para trás de uma pereira e no fim ia caindo pelas escadas abaixo.

E só fui descoberta porque o príncipe, agora meu marido e rei, besuntou a escadaria do palácio com pez (uma substância resinosa extraída do pinheiro e de outras árvores coníferas). Eu não sabia e pantufa ficou lá agarrada! Eu e o príncipe, agora meu marido e rei, rimos muito ao recordar esse momento!

Assim sendo, eu não perdi nenhum sapato! Além do mais eu não sou de perder coisas e mulher nenhuma do mundo perde um sapato e continua a correr (a não ser que esteja no meio da estrada com um autocarro a passar).

6) A parte da história que NUNCA contam!

Imagino que as verdades melindrosas não sejam contadas para proteger os mais vulneráveis, mas isto é justiça. E da bíblica!

Porque é que nunca contam, eu pelo menos nunca ouvi, que os olhos das minhas irmãs foram vazados no dia do meu casamento?

Lembro-me perfeitamente, elas ladeavam-me com aquele ar falso de donzelas, quando duas pombas vieram do nada e trás! Uma limpeza! Cegas para o resto da vida! Ficaram logo ali à porta da igreja a pedir esmola, à chuva e ao sol!

Eu sou boa, amiga dos animais, tenho um coração de ouro, mas quando me pisam os calos, não me esqueço! Nunca mais quis saber delas para nada.

………………………………. FIM………………………………….

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